"Bachiana nº1" - São Paulo Cia. de Dança

Folha de S.Paulo - 11 de maio de 2012

(texto na íntegra)

Perfil de versatilidade da São Paulo Cia. de Dança esbarra em questão problemática
A SPCD (São Paulo Companhia de Dança) não possui um coreógrafo fixo e, para criar um repertório versátil, sempre convida criadores renomados.
Sua mais recente encomenda é o espetáculo "Bachiana nº1", assinado por Rodrigo Pederneiras – coreógrafo do Grupo Corpo –, que trabalhou a partir da obra musical de Heitor Villa-Lobos, a “Bachianas Brasileiras n°1”.
A linguagem de Pederneiras é um conjunto de movimentos diferentes do balé e, para aprendê-la, é preciso tempo de amadurecimento.
Logo, surge uma problemática: como é possível em pouco tempo de ensaio condicionar os corpos dos bailarinos para realizar essa diferente linguagem de dança?
O treinamento em balé clássico prepara fisicamente, o bailarino, para a realização virtuosa dos passos. Mas o aperfeiçoamento de outra técnica de dança exige a constante repetição dessa mesma técnica.
Certamente, o intuito da SPCD não é recriar o trabalho que Pederneiras desenvolve no Grupo Corpo, e sim possibilitar a adaptação dos bailarinos à sua proposta.
No entanto, o contexto de pouco convívio da companhia com a nova linguagem gera o risco de situar a obra em uma zona superficial de “corte e colagem” de movimentos.
Nas cenas coletivas, percebe-se que, mesmo com nível técnico avançado, o grupo não está afinado.
Apenas no pas-de-deux (duo principal) o traço autoral do coreógrafo fica mais aprofundado, talvez porque o acordo entre dois corpos aconteça mais rápido.
O perfil de versatilidade da SPCD esbarra nos limites burocráticos de tempo e nos limites físicos de assimilação de uma nova informação. A questão se impõe e merece reflexão.
Avaliação: Regular

Logos-Diálogos

     Folha de S. Paulo - 8 de maio de 2012

As seis suítes de Bach traduzidas em passos de dança
O diálogo entre a dança e as suítes de Johann Sebastian Bach (1685-1750) é a premissa de “Logos Diálogos”, espetáculo dirigido por Dimos Goudaroulis – violoncelista grego que vive no Brasil desde 1996.
O músico partiu das seis suítes para violoncelo de Bach, convidando seis coreógrafos para compor uma obra para cada suíte. As três obras iniciais são de autoria de Jorge Garcia, Luis Arrieta e Henrique Rodovalho.
Por serem pertencentes ao estilo barroco, atribuem às composições de Bach imagens simbólicas ligadas à religiosidade. No espetáculo, essas imagens influenciam as composições coreográficas, os figurinos e toda a cenografia de Fábio Namatame – além da iluminação, assinada por Joyce Drummond.
A coreografia de Jorge Garcia é executada por sua própria companhia de dança contemporânea, a J.Gar.Cia. As sequências de movimentos fluídas e com ritmo intenso, dialogam com o ambiente da “Suíte nº1”, que representa a luz.
Já Luis Arrieta faz duo com a bailarina Ana Botafogo. De tonalidade dramática, a dupla ora ocupa a luz, ora estava à sombra, combinando com a representação da “Suíte nº2”, a do sofrimento.
Inspirados na “Suíte nº3”, Henrique Rodovalho e a sua Quasar Cia de Dança representam a elevação espiritual. O grupo, com nove bailarinos vestidos de branco, foca na movimentação articulada e nas cenas coletivas.
O encontro entre música e dança, no entanto, não se detém aos passos marcados pelo ritmo musical, o que seria um modo convencional de realizar a proposta. No espetáculo, as notas musicais são sempre digeridas e relançadas em novas possibilidades de sentido por meio das linguagens coreográficas.
 A linha condutora de “Logos Diálogos” é Goudaroulis tocando ao vivo. Mas o músico sofreu uma queda inesperada no ensaio antes da estreia, dia 1º/5, na qual fraturou o pulso. A solução encontrada para suprir sua ausência é poética: o violoncelo, só, fica presente no palco durante todo o espetáculo.
As três últimas suítes de “Logos-Diálogos”, assinadas por Tíndaro Silvano, Ismael Ivo e Deborah Colker, serão apresentadas hoje e amanhã.
 Avaliação: Bom




Virsky - Balé Nacional da Ucrânia

Folha de S. Paulo - 26 de abril de 2012





Balé exibe tradições da dança ucraniana no Brasil

Virtuosismo e tradição: essa é a máxima do Virsky, o Balé Nacional da Ucrânia. O grupo de dança folclórica do país, criado em 1937, está em turnê por dez cidades brasileiras e se apresentará em São Paulo na semana que vem, no Theatro Municipal.
A turnê integra as comemorações de 20 anos de relações diplomáticas entre Ucrânia e Brasil – o país reúne uma das maiores comunidades ucranianas do mundo.
A passagem do Virsky está sendo marcada pela realização de workshops em cada cidade em que o balé se apresenta (seis, até agora).
Um dos propósitos é se aproximar do público, principalmente o jovem, para que possa ver de perto a execução técnica e didática das coreografias tradicionais.
“Na companhia, o primeiro critério é o profissionalismo e o segundo é a disciplina. Somos o número um da Ucrânia.” afirma o mestre de balé Volodymyr Tulagin, em entrevista concedida à Folha durante a passagem do grupo Virsky por Curitiba.
LEGADO
O Virsky é incumbido de preservar o legado coreográfico de seu país. O repertório é formado por passos de dança, presentes em rituais e festas de antigos povos da Ucrânia, que persistem por terem sido ensinados de geração em geração no Leste Europeu.
Segundo Tulagin, a maioria dos movimentos encenados são os mesmos de antigamente, mas a realização técnica é diferente – houve, portanto, uma adaptação para serem mostrados nos palcos.
“Somos uma companhia profissional, o objetivo é mostrar uma dança de alto padrão acadêmico”, completa o ucraniano.
O espetáculo é uma série de 15 cenas com temáticas populares, como o amor e a guerra. O foco são coreografias coletivas executadas simetricamente, deixando claro todo o virtuosismo dos bailarinos do grupo.
A disciplina rigorosa permite um alto nível técnico nas apresentações. Em (no mínimo) 12 anos de estudo intensos, os alunos da escola de formação do Virsky passam por provas seletivas de aptidão. Além disso, participam de aulas diárias de balé clássico e de outras danças tradicionais populares.
“Temos a necessidade de conhecer tudo que existe na dança”, afirma a bailarina Viktoriia Karpenko.
Por sua representatividade histórica, a companhia conta com o apoio do governo ucraniano para manter sua escola em funcionamento. Cerca de 90% dos profissionais formados tornam-se bailarinos de outras companhias ao redor do mundo.
Para a turnê, o Virsky trouxe 50 bailarinos, uma orquestra de 15 músicos e mais de 400 trajes típicos, que somam cerca de quatro toneladas. Mas a enorme estrutura é só parte dos motivos que fazem do Virsky um dos principais balés folclóricos do mundo.


"Flutuante" - Cia Flutuante


Folha de S.Paulo - 21 de março de 2012


Espetáculo explora de forma delicada o prazer e o erotismo
“Flutuante” é um espetáculo de dança que nos coloca em frente a uma condição muito humana: a relação com o prazer.  Como não ser explícito ao tratar de um assunto tão ligado ao erotismo?
É com total delicadeza que a coreógrafa Leticia Sekito, brasileira de ascendência japonesa, responde a essa pergunta.
A Companhia Flutuante, que ela fundou, é um grupo fora dos moldes das companhias tradicionais. Seu elenco não é fixo, e as produções são diversificadas: espetáculos, intervenções e vídeos.
Com mais dois intérpretes, o novo trabalho surgiu inspirado nas gravuras japonesas do período Edo (1603-1868), cujo final é o momento considerado o início da era moderna no Japão.
E, para falar do mundo de entretenimento e prazer que essas gravuras representavam, o grupo combina uma série de cenas muito bem elaboradas entre cenário, luz, som e dança.
Um corpo feminino à luz de velas, a memória provocada pelo som das palavras e uma luminária vermelha parece bailar sozinha no ar. Escolhas simples que se engrandecem à medida que as cenas aguçam os sentidos do público.
 O clima sensual é alcançado por uma via não habitual, e o erótico é sugerido com sutileza. As metáforas apontam para uma concepção de sensualidade mais ampla, que pode ser traduzida como uma força pulsante de vida.
 “Flutuante” guarda coerência com todo o percurso da artista e apresenta uma dança bem cuidada em suas escolhas estéticas. E assim, Leticia Sekito, a cada trabalho, se mostra mais madura como diretora.

Avaliação: Ótimo

Panorama Sesi de Dança

                   

 Folha de São Paulo - 15 de dezembro de 2011



Panorama Sesi de Dança apresenta vitrine de diversidade
Final de ano é época de fazer balanço dos acontecimentos. Na dança também é assim, algumas mostras são dedicadas às produções recentes e expõem os caminhos trilhados por profissionais da área.
Nessa lógica, o Panorama Sesi de Dança, em sua 11º edição, reuniu oito espetáculos bem diferentes. Diversidade que dá uma ideia do quanto a dança se expandiu no Brasil e fora dele.
A boa novidade na edição é a companhia suíça Alias, dirigida pelo brasileiro Guilherme Botelho. O coreógrafo fez carreira na Europa, e até então, é pouco conhecido por aqui.
Os dois espetáculos trazidos, “Le Poids des Éponges” (2002) e “Sideways Rain” (2010), captam dois momentos distintos de Botelho. O primeiro se aproxima de dança-teatro com recursos surpreendentes, como uma chuva que cai em cena.
Já o segundo se concentra no corpo. Os bailarinos atravessam ininterruptamente o palco e a repetição contínua altera a percepção do público. É a questão das emergências vividas atualmente.
A curadora do Panorama, Ana Francisca Ponzio, acerta ao possibilitar que a plateia familiarizada ou não com dança, possa conhecer o trabalho maduro de Botelho.
A mostra se completa com outras ricas vertentes de criação. Antônio Nóbrega (com o espetáculo “Naturalmente - Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira”), artista multifacetado, evolui no intuito de conceber a dança popular brasileira como base de sua linguagem contemporânea.
Cristian Duarte (“The Hot One Hundred Choreographers”), Jorge Garcia (“Memórias Paralelas”) e Maurício de Oliveira (“Jardim Noturno”), são expoentes de alto nível da cena paulistana.
E ainda, em momento histórico, o Ballet Stagium comemora 40 anos com espetáculo feito especialmente para a ocasião.
Por fim, o grupo mineiro, Cia. Mário Nascimento, estreia “Território Nu”.
O Panorama Sesi de Dança é eficaz como vitrine das criações. E, junto a outros festivais que discutem políticas para a dança, soma esforços na formação de público e no apontamento das demandas desse campo profissional. Merece mais que uma edição por ano.

Avaliação: Ótimo

Bienal SESC de Dança


                                       Folha de SP - 10 de setembro de 2011

(texto na íntegra)

Bienal SESC de Dança apresenta vários caminhos para a dança contemporânea
Na 7° Bienal SESC de Dança, ocorrida em Santos entre os dias 2 e 8, foi possível acompanhar um trecho relevante dos caminhos da dança contemporânea. Caminhos que têm as mais diversas direções.
A dança contemporânea é uma arte que, assim como outras, tem fronteiras que a definem como linguagem específica, diferenciando-a de outras manifestações artísticas. Isso não impede, porém, a expansão contínua de seus limites.
Baseados em inquietações pessoais ou questões sobre lacunas da sociedade de consumo, muitos artistas propõe para o território da dança contornos inesperados.
Trabalhos de vários períodos e países foram apresentados no SESC, em teatros da cidade e em espaços públicos.
A diversidade de apresentações possibilitou a visualização, mesmo que parcial, de um panorama sobre o que é criado em dança contemporânea e para onde apontam essas criações.
Coreografias internacionais de Mathilde Monnier (França) e Les Ballets C de la B (Bélgica), companhias que despontaram nos anos 80, apesar de datadas, guardam proximidade com formas de dança ainda muito atuais.
Artistas brasileiros com anos de estrada, como Marta Soares (“Vestígios”) e Maurício de Oliveira (“Objeto Gritante”), mostraram espetáculos maduros, com concepções estéticas bem resolvidas.
Grupos que percorrem os limites da dança com a performance puderam ser vistos. São exemplos, o bem humorado grupo baiano Dimenti (“Um Dente Chamado Bico”) e o Núcleo do Dirceu (“Matadouro”). Ao seu modo, criaram cenas irônicas ou contundentes, provocando, por vezes, estranhamento na platéia.
Jovens artistas também estavam presentes. Alguns de seus trabalhos não tinham o refinamento que se encontra nos veteranos, mas as diferenças revelaram a Bienal como um espaço para se pensar nos tão diversos modos de se fazer dança.
Sem a pretensão de entrar em comparações sobre o que é antigo ou novo, a convivência entre criações distintas foi a marca desta edição.
E a convivência, essa sim, é uma questão profundamente contemporânea.

Avaliação: Bom

" O Lago dos Cisnes" - Ballet Kirov



Folha de SP - 25 de agosto de 2011
                                                                                                                                                                                                                                                              

(texto na íntegra)
Kirov faz espetáculo morno com jovens em SP
Tradicional companhia russa de balé se apresenta sem elenco principal; equipe mais experiente está em férias
Como olhar para o romântico balé “O Lago dos Cisnes” dançado pelo célebre Ballet Kirov, e não se deslumbrar?
Essa é a questão que pode rondar o pensamento do público que foi assistir a tradicional companhia russa.
Verdadeiros artistas da dança saltaram da Rússia para o mundo através do Kirov, escola de grandes nomes do balé, como Vaslav Nijinsky (1890-1950) e Anna Pavlova (1881-1931).
A companhia tem por fundamento manter a tradição das montagens de balé clássico. A união entre história e alto grau técnico é a bagagem sustentada pelo Kirov em suas turnês, o que parece sugerir certa garantia de excelência.
Entretanto, como todo trabalhador, o bailarino precisa de férias. Por esse motivo, a companhia desembarcou no Brasil sem parte do seu elenco mais experiente.
O que se vê no palco é um grupo de bailarinos em sua maioria jovem. Isso fatalmente pesa na realização de uma obra símbolo como “O Lago dos Cisnes”.
Alguns personagens interpretados por bailarinos solistas aparecem com expressividade morna. O Bobo da Corte, que deveria pontuar com pitadas levemente cômicas as cenas que ocorrem nos jardins e interior do palácio, explora timidamente sua presença cênica.
O Príncipe Siegfried e o mago vilão Rothbart têm desempenho regular. Executam com aptidão virtuosa a coreografia, porém sem doar aos personagens a carga dramática de que necessitam.
A interpretação mais aguardada, a cisne branca (Odette) e a cisne negra (Odile), foi ponto alto da noite.
A bailarina “primeira solista” Yekaterina Kondaurova com seus longos braços estabeleceu uma sólida diferença entre a doçura frágil de uma cisne e a malícia obscura da outra.
Essa diferenciação é tão bem marcada na movimentação e nas expressões faciais, que por vezes não aparenta ser a mesma bailarina.
A força da música de Tchaikovsky, representada ao vivo pela Orquestra Sinfônica Municipal, é deleite aos ouvidos. E mesmo com a falta de seus experientes bailarinos, o Ballet Kirov  deslumbrou os olhos menos atentos.

Avaliação:  Regular